Alzheimer: quando a doença começa em silêncio
Conheças os avanções e descobertas da medicina sobre como prevenir, diagnosticar e tratar o Alzheimer
DIAGNÓSTICO
Mauricio Maluf Barella
8/15/20254 min read
Introdução
Esquecer nomes, compromissos ou tarefas do dia a dia pode gerar preocupação. Nem sempre isso significa Alzheimer: o esquecimento pode estar relacionado a estresse, depressão ou outros problemas de saúde.
Porém, em alguns casos, ele pode ser um dos primeiros sinais de uma condição neurodegenerativa mais séria.
O importante é entender que o diagnóstico de Alzheimer não é uma sentença de morte.
A ciência tem mostrado que a doença se desenvolve lentamente, muitas vezes décadas antes dos primeiros sintomas claros, e que existe muito a ser feito em termos de prevenção, acompanhamento e melhora da qualidade de vida.
O “burnout” do cérebro: quando a limpeza falha
Nosso cérebro possui um sofisticado sistema de “limpeza” formado por células chamadas astrócitos e micróglia, que ajudam a proteger os neurônios contra inflamações e a eliminar resíduos.
Com o passar dos anos — e principalmente sob impacto de fatores como sedentarismo, tabagismo, hipertensão mal controlada, colesterol elevado e consumo excessivo de álcool — esse sistema pode ficar sobrecarregado.
É como se o cérebro sofresse um burnout: os mecanismos de defesa entram em fadiga, permitindo o acúmulo de proteínas tóxicas, como a beta-amiloide. Essas proteínas prejudicam as conexões entre os neurônios (as sinapses), e com o tempo também afetam os microtúbulos, que são sustentados pela proteína tau.
Quando a tau se modifica e se espalha de um neurônio para outro, o processo de degeneração acelera, levando à atrofia cerebral e ao surgimento da demência.
O Alzheimer pode começar décadas antes dos sintomas
Estudos mostram que o processo neuroinflamatório pode começar na meia-idade, mesmo que a pessoa ainda não perceba nada.
Alterações cerebrais ligadas ao Alzheimer podem estar em andamento 20 a 30 anos antes dos sintomas de memória ou raciocínio aparecerem. Hoje já é possível detectar alguns sinais desse processo de forma cada vez mais precoce, seja por meio de biomarcadores no sangue e no líquor, seja por exames de imagem (como a tomografia por emissão de pósitrons – PET).
A contribuição dos critérios de Dubois: uma nova forma de diagnosticar
Tradicionalmente, o Alzheimer só era diagnosticado quando a demência já estava instalada, ou seja, quando a perda de memória e de autonomia eram evidentes. Mas a partir dos critérios propostos por Dubois e colaboradores (2014, IWG-2), a doença passou a ser entendida como um processo contínuo, que pode ser identificado em fases muito mais iniciais:
Fase pré-clínica: alterações cerebrais detectáveis, mas sem sintomas claros.
Fase prodrômica: pequenos déficits de memória episódica, ainda sem impacto significativo na autonomia (muito próximo ao chamado Comprometimento Cognitivo Leve).
Demência estabelecida: quando as alterações cognitivas já comprometem o dia a dia.
Essa mudança de paradigma permite diagnosticar antes, planejar melhor e oferecer intervenções mais cedo, quando ainda há maior reserva cognitiva.
Prevenção: mais da metade dos casos pode ser evitada
Um dado que traz esperança: até 50% dos casos de demência podem ser prevenidos com mudanças no estilo de vida. Isso inclui: manter-se fisicamente ativo, adotar uma alimentação balanceada, controlar a pressão arterial e o colesterol, evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool, estimular o cérebro com leitura, aprendizado contínuo e atividades sociais.
Essas medidas reduzem a inflamação cerebral, ajudam a proteger os neurônios e fortalecem a reserva cognitiva — atrasando ou até mesmo evitando a manifestação dos sintomas clínicos da doença.
O diagnóstico não é o fim, e sim um começo
Receber um diagnóstico de Alzheimer pode ser assustador, mas é essencial lembrar que a doença não define a pessoa. Com acompanhamento adequado, estratégias de prevenção, tratamentos disponíveis e apoio psicológico e social, é possível manter qualidade de vida, autonomia e significado nas relações.
Cada vez mais a ciência avança em terapias que visam retardar a progressão da doença. E mesmo quando não há cura, há sempre espaço para cuidado, dignidade e bem-estar.
Conclusão
O Alzheimer pode começar em silêncio, mas não deve ser enfrentado sozinho. Se você ou alguém da sua família tem apresentado esquecimentos frequentes ou outras mudanças cognitivas, uma avaliação neuropsicológica precoce pode ajudar a diferenciar causas reversíveis de sinais iniciais da doença. 👉 Agende sua avaliação e descubra como é possível prevenir, cuidar e viver melhor, mesmo diante do diagnóstico.
Referências (ABNT)
DUBOIS, B.; FELDMAN, H. H.; JACOVA, C.; DEKOSKY, S. T.; BARBERGER-GATEAU, P.; CUMMINGS, J.; et al. Advancing research diagnostic criteria for Alzheimer’s disease: the IWG-2 criteria. The Lancet Neurology, v. 13, n. 6, p. 614-629, 2014. DOI: 10.1016/S1474-4422(14)70090-0.
SPERLING, R. A.; AISEN, P. S.; BECKETT, L. A.; BENNETT, D. A.; CRAFT, S.; FAGAN, A. M.; et al. Toward defining the preclinical stages of Alzheimer’s disease: recommendations from the National Institute on Aging-Alzheimer’s Association workgroups. Alzheimer’s & Dementia, v. 7, p. 280–292, 2011.
DRISCOLL, I.; TRONCOSO, J. Asymptomatic Alzheimer’s Disease: A Prodrome or a State of Resilience? Journal of Alzheimer’s Disease, v. 22, p. 23-26, 2010. DOI: 10.3233/JAD-2010-100314.
LIVINGSTON, G.; HUNTLEY, J.; SOMMERLAD, A.; AMES, D.; BALLARD, C.; BANERJEE, S.; et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30367-6.