As principais diferenças entre os tipos de demência: muito além do Alzheimer
Conheça os tipos de demências e seus impactos
Mauricio Maluf Barella
1/15/20264 min ler


A Doença de Alzheimer é, sem dúvida, a forma mais conhecida de demência. No entanto, ela está longe de ser a única. A ciência atual mostra que a maioria das pessoas que desenvolve demência não apresenta apenas uma patologia isolada no cérebro, mas sim uma combinação de diferentes processos neurodegenerativos que coexistem e interagem.
Em exames neuropatológicos de idosos com demência, é comum encontrar simultaneamente placas de beta-amiloide e emaranhados de tau (típicos do Alzheimer), lesões vasculares (da demência vascular) e acúmulos de outras proteínas tóxicas associadas a demência com corpos de Lewy, demência frontotemporal e LATE (encefalopatia relacionada à proteína TDP-43). Por isso, os especialistas chamam muitos casos de demência mista.
Como resume o neurologista Costantino Iadecola, da Weill Cornell Medicine:
“Se você observar os idosos com demência, o que eles têm? Bem, eles têm um pouco de tudo.”
Embora ainda não existam tratamentos capazes de interromper ou reverter a progressão dessas doenças, identificar corretamente o tipo predominante de demência é essencial para compreender os sintomas, orientar o tratamento e prever a evolução clínica.
A seguir, explicamos os principais tipos de demência além do Alzheimer.
Demência Vascular
A demência vascular é o segundo tipo mais comum de demência. Ela ocorre quando o cérebro sofre danos devido à redução do fluxo sanguíneo, seja por grandes derrames, pequenos infartos repetidos ou por um processo crônico de deterioração dos vasos sanguíneos menores.
Esses danos afetam principalmente a substância branca, que é formada por fibras nervosas responsáveis por conectar diferentes regiões do cérebro. Quando a irrigação sanguínea dessas fibras é comprometida, os sinais entre os neurônios passam a circular de forma lenta e ineficiente.
Por isso, os sintomas mais característicos da demência vascular são:
Lentificação do pensamento e do raciocínio
Dificuldade para planejar, tomar decisões e resolver problemas
Queda na capacidade de executar tarefas do dia a dia
Marcha mais lenta e instabilidade ao andar
A memória pode ser afetada, mas geralmente o prejuízo executivo e a lentidão mental são mais marcantes do que no Alzheimer inicial.
Demência com Corpos de Lewy
A demência com corpos de Lewy é causada pelo acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína no cérebro e no sistema nervoso periférico. Esses depósitos, chamados corpos de Lewy, interferem tanto na cognição quanto no controle motor e autonômico.
Diferente do Alzheimer, a perda de memória pode não ser o sintoma inicial. O que mais se destaca são:
Dificuldades de atenção e função executiva
Alterações visuoespaciais (dificuldade de localizar objetos ou julgar distâncias)
Alucinações visuais vívidas e recorrentes
Além disso, surgem sintomas físicos semelhantes ao Parkinson, como:
Rigidez muscular
Tremores
Lentidão de movimentos
Problemas de equilíbrio
Também são comuns sintomas autonômicos: constipação, queda de pressão ao se levantar, alterações urinárias e, nos homens, disfunção erétil.
Demência Frontotemporal (DFT)
A demência frontotemporal afeta principalmente os lobos frontal e temporal do cérebro, regiões responsáveis por comportamento, personalidade, linguagem e tomada de decisões. Diferente de outras demências, ela costuma surgir mais cedo, geralmente entre os 40 e 60 anos.
Seus sintomas iniciais raramente são perda de memória. O que mais chama atenção são:
Mudanças de personalidade
Comportamento impulsivo ou socialmente inadequado
Falta de empatia
Apatia e perda de iniciativa
Dificuldades de planejamento, organização e julgamento
Algumas pessoas passam a agir de forma desinibida, fazem comentários impróprios ou se tornam emocionalmente frias. Em outras, surgem alterações importantes da linguagem.
LATE – Encefalopatia TDP-43 relacionada à idade
LATE é um tipo de demência descrito mais recentemente e afeta principalmente pessoas muito idosas, acima dos 80 anos. Ela é causada pelo acúmulo anormal da proteína TDP-43, especialmente no hipocampo, região essencial para a memória.
Clinicamente, LATE se parece muito com o Alzheimer:
O principal sintoma é a perda de memória
O início costuma ser lento
A progressão isolada tende a ser relativamente suave
O problema surge quando LATE ocorre junto com Alzheimer, algo bastante comum. Nesse caso, a evolução se torna mais rápida e grave, podendo incluir ansiedade, depressão, alucinações e delírios.
Estudos mostram que cerca de um terço das pessoas com mais de 80 anos apresenta sinais de LATE no cérebro.
Por que diferenciar os tipos de demência é tão importante?
Embora não exista cura para nenhuma dessas doenças, cada tipo de demência afeta circuitos cerebrais diferentes e produz padrões distintos de sintomas. Isso significa que:
As estratégias de manejo comportamental variam
Alguns medicamentos podem ajudar em um tipo e piorar outro
A previsão de progressão e necessidades futuras muda conforme o diagnóstico
Além disso, compreender que muitos pacientes têm demência mista ajuda a explicar por que os sintomas são tão variados e por que a evolução nem sempre segue o “padrão clássico” do Alzheimer.
Conclusão
Falar em demência hoje significa falar em um conjunto de doenças que frequentemente coexistem no cérebro envelhecido. O Alzheimer é apenas uma parte desse cenário. Demência vascular, corpos de Lewy, demência frontotemporal e LATE contribuem, de maneiras diferentes, para o comprometimento cognitivo, emocional e funcional dos pacientes.
Um diagnóstico preciso, feito por avaliação clínica, neuropsicológica e exames de imagem, é fundamental para oferecer um cuidado mais adequado, humano e eficaz.