Diferenciar Alzheimer de Demência Fronto Temporal com EEG
Estudo publicado em 2025 mostra resultados interessantes na diferenciação das demências com o uso do EEG
3/8/20266 min ler
O eletroencefalograma (EEG) pode ajudar a diferenciar Alzheimer de demência frontotemporal?
Resultados recentes que mudam a prática clínica
Quando surgem queixas de memória, comportamento ou linguagem, uma das grandes dúvidas é: estamos diante de doença de Alzheimer ou demência frontotemporal (DFT)? Ambas são doenças neurodegenerativas, mas com evolução, sintomas e prognóstico diferentes. Acertar o diagnóstico não é apenas “colocar um nome”: isso muda o plano de tratamento, o acompanhamento da família e até decisões de vida do paciente.
Nos últimos anos, o eletroencefalograma quantitativo (qEEG) tem ganhado espaço como ferramenta complementar importante na investigação de demências. Um estudo científico recente, publicado em 2026 na revista Scientific Reports, trouxe resultados muito relevantes sobre o uso do EEG para diferenciar Alzheimer, DFT e envelhecimento saudável, com implicações práticas para a clínica.
Neste artigo, vamos explicar em linguagem acessível:
O que o EEG mede no cérebro
Quais alterações foram encontradas na doença de Alzheimer
Quais padrões parecem caracterizar a demência frontotemporal
Como isso pode ajudar na avaliação diagnóstica
Quando faz sentido procurar uma avaliação cognitiva especializada
O que o EEG mede e por que isso importa nas demências
O EEG registra a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos posicionados no couro cabeludo. Essa atividade é organizada em faixas de frequência, geralmente divididas em:
Delta (0,5–4 Hz) – ondas mais lentas
Theta (4–8 Hz)
Alpha (8–13 Hz)
Beta (13–30 Hz)
Gamma (30–45 Hz)
Em pessoas com demência, a comunicação entre diferentes regiões cerebrais se torna menos eficiente. O EEG quantitativo permite medir isso de duas formas principais:
Potência espectral: quanta “energia” o cérebro apresenta em cada faixa (por exemplo, quanto de alfa, quanto de beta).
Conectividade funcional: quão sincronizadas estão diferentes regiões entre si (por exemplo, frontal com temporal, parietal com occipital).
Essas medidas funcionam como “assinaturas elétricas” dos circuitos cerebrais. No estudo recente, os autores compararam 3 grupos:
36 pessoas com Alzheimer
23 com demência frontotemporal
29 controles cognitivamente normais (envelhecimento saudável)
Os participantes fizeram EEG de olhos fechados em repouso, e os pesquisadores analisaram tanto a potência das faixas de frequência quanto a conectividade entre as regiões do cérebro.
Principais achados no EEG da doença de Alzheimer
O estudo confirmou e refinou um padrão que já vinha sendo observado em outros trabalhos: na doença de Alzheimer, há uma “lentificação” do EEG e perda de conectividade.
Alguns pontos se destacam:
Redução importante de ondas alfa
Pessoas cognitivamente saudáveis apresentaram potência alfa global mais alta do que os grupos com demência.
Em especial, os pacientes com Alzheimer mostraram redução marcada de alfa nas regiões temporal e parietal, áreas muito relacionadas à memória e integração de informações sensoriais.
Alterações regionais em alfa e beta
Tanto Alzheimer quanto DFT apresentaram redução de potência nas regiões occipitais, nas faixas alfa e beta, quando comparados com envelhecimento saudável.
No Alzheimer, essa redução se associou a uma distribuição de potência mais “heterogênea” entre os lobos, sugerindo um padrão mais caótico de atividade cerebral.
Conectividade funcional amplamente reduzida
Usando uma medida de sincronização de fase entre os eletrodos, o estudo mostrou que o Alzheimer apresenta queda significativa da conectividade (edge e node strength) em várias faixas de frequência:
Delta
Theta
Beta
Gamma
Em outras palavras, o cérebro de pacientes com Alzheimer mostra menor sincronização entre regiões, indicando perda de comunicação funcional entre redes.
Rede global mais “desconectada”
A análise de grafos (redes) revelou que, no Alzheimer, há uma quebra mais difusa e severa da rede de conexões, o que é coerente com o quadro clínico de declínio de memória, orientação, linguagem e funções executivas.
O que diferencia a demência frontotemporal no EEG
A demência frontotemporal (DFT) costuma se manifestar com alterações de comportamento, personalidade, julgamento e linguagem, muitas vezes em idade mais precoce do que o Alzheimer. Na prática, nem sempre é fácil diferenciá‑la apenas pelo quadro clínico, principalmente em fases iniciais.
No estudo com EEG, alguns achados foram particularmente interessantes:
Potência global: um “meio‑termo” entre Alzheimer e envelhecimento saudável
Em comparação com Alzheimer, os pacientes com DFT apresentaram:
Menos potência nas faixas mais lentas (delta e theta)
Um pouco mais de potência em alfa e beta
Isso sugere que, do ponto de vista elétrico, a DFT pode estar menos “lentificada” do que o Alzheimer, aproximando-se parcialmente do padrão de indivíduos saudáveis.
Conectividade preservada ou aumentada em algumas faixas
Em relação ao grupo controle, a DFT mostrou:
Conectividade reduzida em delta e theta (como no Alzheimer, embora de forma menos extensa).
Conectividade significativamente aumentada em beta, o que não foi observado no Alzheimer.
Esse aumento de conectividade em beta pode refletir formas compensatórias de funcionamento ou um padrão de hiperconectividade em sistemas específicos, como já sugerido por estudos de ressonância funcional.
Padrão mais “homogêneo” de distribuição de potência
Enquanto o Alzheimer mostra uma distribuição de potência entre os lobos mais irregular (heterogênea), a DFT apresenta um padrão mais uniforme.
Isso pode indicar uma progressão mais “regular” da doença em determinadas redes, com predomínio de acometimento temporal anterior e variações frontais dependendo do subtipo.
Envolvimento marcante do lobo temporal
A análise de conectividade por lobos mostrou que, na DFT, o lobo temporal parece mais afetado que o frontal em diversos parâmetros de conectividade.
Isso é coerente com quadros clínicos de DFT com linguagem e reconhecimento alterados, e com achados de imagem mostrando atrofia temporal anterior.
Como o EEG ajuda a diferenciar Alzheimer, DFT e envelhecimento saudável
A grande contribuição desse trabalho é mostrar que combinar potência de bandas com conectividade gera um conjunto de marcadores que, juntos, ajudam na diferenciação entre os quadros:
Para diferenciar envelhecimento saudável de demência (Alzheimer ou DFT):
Redução de potência alfa global, especialmente em regiões occipitais, temporais e parietais
Redução de conectividade em faixas lentas (delta e theta), sobretudo em lobos frontal, temporal e central
Para diferenciar Alzheimer de demência frontotemporal:
Alzheimer:
Redução acentuada de alfa temporal e parietal
Conectividade mais amplamente reduzida em delta, beta e gamma
Distribuição de potência mais heterogênea entre os lobos
DFT:
Conectividade aumentada em beta em relação a controles
Potência global menos lentificada que no Alzheimer
Padrão de conectividade sugerindo maior comprometimento temporal do que frontal
Em resumo, o EEG não substitui avaliação clínica, neuropsicológica e exames de imagem, mas pode ser uma ferramenta complementar robusta, especialmente em casos em que a suspeita entre Alzheimer e DFT não está clara.
O que isso significa na prática para pacientes e famílias
Na clínica, esses achados reforçam alguns pontos importantes:
Queixas de memória, atenção, comportamento ou linguagem não devem ser atribuídas automaticamente à “idade”.
Uma avaliação cognitiva estruturada, associada a exames complementares como EEG e, quando indicado, neuroimagem, aumenta muito a chance de um diagnóstico mais preciso.
Diferenciar Alzheimer de demência frontotemporal ajuda a planejar melhor o cuidado, compreender o padrão de evolução esperado e orientar a família sobre estratégias para lidar com alterações de comportamento e funcionalidade.
Quanto mais cedo o quadro é identificado, maior a oportunidade de:
Intervir em fatores modificáveis (sono, humor, vascular, medicações)
Planejar rotinas, adaptações de ambiente e suporte social
Incluir o próprio paciente nas decisões sobre seu cuidado
Quando procurar avaliação cognitiva especializada?
Recomenda-se buscar uma avaliação quando você, um familiar ou cuidador percebe:
Esquecimentos frequentes que atrapalham o dia a dia (repetição de perguntas, perda de objetos importantes, dificuldade em seguir conversas)
Mudanças marcantes de comportamento ou de personalidade
Queda de iniciativa, apatia ou desinibição não condizente com o jeito habitual da pessoa
Dificuldades novas de linguagem (trocar palavras, “travar” para falar, não reconhecer objetos comuns)
Dificuldade progressiva para gerenciar finanças, remédios, compromissos ou tarefas que antes eram simples
Na MB Clínica, em São Paulo, nossa equipe realiza avaliações cognitivas detalhadas e, quando indicado, integra esses dados com exames complementares, para apoiar a diferenciação entre Alzheimer, demência frontotemporal e outras causas de comprometimento cognitivo.
Chamada para ação: marque uma avaliação cognitiva
Se você identificou alguns desses sinais em você ou em alguém próximo, não espere a situação se agravar.
Entre em contato com nossa equipe para agendar uma avaliação cognitiva completa.
Vamos investigar, de forma cuidadosa e humanizada, se há alterações compatíveis com Alzheimer, demência frontotemporal ou outros quadros, e orientar os próximos passos de tratamento e acompanhamento.
Telefone/WhatsApp: (11) 93777‑4004
E-mail: tratamentoalzheimer@gmail.com
Endereço: Rua dos Ingleses, 149 – São Paulo, SP
Cuidar da saúde do cérebro hoje é investir em autonomia, qualidade de vida e bem-estar para os próximos anos.
Referência do estudo em formato ABNT
IQBAL, Shahid; NISAR, Humaira; YEAP, Kim Ho. Quantitative EEG signatures of power and functional connectivity alterations in Alzheimer’s disease and frontotemporal dementia. Scientific Reports, [S. l.], 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-026-42452-9. Acesso em: 8 mar. 2026.