O continuum do Alzheimer: da detecção precoce ao tratamento baseado em biomarcadores
O Alzheimer é um continuum biológico: descubra como biomarcadores AT(N) e ATX(N) ajudam no diagnóstico precoce e no tratamento personalizado.
DIAGNÓSTICO
8/27/20253 min read


Introdução
O Alzheimer deixou de ser compreendido apenas como uma síndrome clínica diagnosticada quando os sintomas de memória já estão evidentes.
Hoje, a doença é vista como um continuum biológico e temporal, no qual alterações cerebrais silenciosas podem surgir décadas antes dos sinais clínicos .
Essa mudança de paradigma foi possível graças ao avanço nos biomarcadores – exames de líquor, neuroimagem e, mais recentemente, testes sanguíneos – que permitem identificar a doença em fases pré-clínicas.
O sistema AT(N): um novo olhar sobre o continuum
O AT(N), proposto em 2016 e adotado em 2018 pela NIA-AA, é uma classificação baseada em biomarcadores que organiza a doença em três eixos principais :
A (Amyloid): deposição de beta-amiloide;
T (Tau): patologia tau fosforilada;
N (Neurodegeneração): lesão neuronal e perda sináptica.
Esse sistema permite categorizar indivíduos independentemente dos sintomas, definindo se estão ou não no continuum do Alzheimer.
Por exemplo:
A+T–N– → indica alteração amiloide inicial (patologia pré-clínica).
A+T+N– → Alzheimer em fase inicial, ainda sem neurodegeneração acentuada.
A+T+N+ → estágio avançado, já com neurodegeneração e sintomas clínicos.
A evolução para o ATX(N)
Com os avanços recentes, o modelo foi expandido para o ATX(N), em que o “X” inclui novos biomarcadores de processos adicionais ligados à doença :
Neuroinflamação e disfunção imune (ex.: TREM2, YKL40).
Disfunção sináptica (ex.: neurogranin, SNAP25).
Alterações vasculares e da barreira hematoencefálica (ex.: sPDGFRβ).
Esse modelo mais amplo reforça a ideia de que o Alzheimer não é apenas uma doença de proteína mal dobrada, mas uma rede complexa de interações moleculares.
Importância do continuum para avaliação clínica
Detecção precoce: pacientes podem ser identificados em estágios pré-sintomáticos, quando intervenções têm maior chance de eficácia.
Diagnóstico diferencial: o uso de biomarcadores ajuda a diferenciar Alzheimer de outras demências (p. ex., demência frontotemporal, doença de corpos de Lewy).
Prognóstico: perfis como A+T+N+ estão associados a declínio mais rápido, enquanto A+T–N– pode permanecer estável por anos.
Neuropsicologia: mesmo antes da demência, já se observam perfis cognitivos sutis – como déficits em memória episódica e fluência verbal – que se correlacionam com o status AT(N).
Implicações para pesquisa e tratamento
Ensaios clínicos: o AT(N) já é utilizado para selecionar participantes com maior probabilidade de responder a terapias anti-amiloide ou anti-tau.
Medicina de precisão: no futuro, a indicação terapêutica poderá ser guiada pelo perfil biológico. Ex.: A+T–N– → indicado para prevenção; A+T+ → terapias anti-tau.
Biomarcadores sanguíneos: a possibilidade de usar exames de sangue para classificar pacientes no continuum (como p-tau217, NfL) promete ampliar o acesso ao diagnóstico em larga escala .
Desafios atuais
Apesar do avanço, ainda existem barreiras:
Padronização de cut-offs para definir positivo/negativo em cada biomarcador.
Acessibilidade: PET e líquor ainda são caros e pouco disponíveis
Interpretação clínica: o AT(N) não substitui o olhar clínico, mas complementa.
Conclusão
O conceito de continuum do Alzheimer marca uma revolução: da visão sintomática para uma abordagem biológica, progressiva e mensurável. Essa mudança impacta diretamente a avaliação neuropsicológica, o diagnóstico precoce, a previsão de risco e o desenvolvimento de tratamentos modificadores da doença.
Em breve, a integração entre biomarcadores de fácil acesso (sangue), neuroimagem avançada e avaliações cognitivas refinadas permitirá uma medicina de precisão em demências.
Referências
HAMPEL, H. et al. Developing the ATX(N) classification for use across the Alzheimer disease continuum. Nature Reviews Neurology, 2021. DOI: 10.1038/s41582-021-00520-w .
JACK, C. R. Jr. et al. NIA-AA Research Framework: Toward a biological definition of Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia, v. 14, p. 535–562, 2018.
JACK, C. R. Jr. et al. A/T/N: An unbiased descriptive classification scheme for Alzheimer disease biomarkers. Neurology, v. 87, p. 539–547, 2016.
MATTSSON, N. et al. Plasma neurofilament light and Alzheimer’s disease: Association with neurodegeneration. JAMA Neurology, v. 74, n. 5, p. 557–566, 2017.
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